Vomitar sangue, senti-lo escorrendo pelas narinas, nada disso mais lhe era novidade. Fora a muitos médicos, passara por exames completos do sistema digestivo, endoscopia, colonoscopia, isto, aquilo, mas nunca com sucesso. Em maiores ou menores quantidades, o sangue continuava vertendo de seu corpo.
Era assim desde que ele se entendia por gente. Desde quando, na infância, jogava futebol nas ruas com os amigos; desde a adolescência, avançando pela juventude, quando se apaixonou por motos e passou a pilotá-las, cada vez mais velozes.
Casou-se. Teve filhos, mas a perda de sangue não lhe abandonava, embora não o impedisse de ter seu trabalho e desenvolver as atividades corriqueiras de um homem comum. Nem mesmo a de usufruir sua paixão por motocicletas.
Não se pode dizer que tanto sangue perdido não lhe incomodasse. Claro que, conforme foi avançando na idade, passou a sentir mais cansaço, menos resistência, e eventualmente procurava um médico para novos exames e diagnósticos inconclusivos.
Certo dia, incomodado com a frequente falta de ar, perda de força, e os eventuais falecimentos repentinos — sempre atribuídos à misteriosa perda de sangue e, talvez, a algum estresse que ele sempre negava ter —, resolveu ir a um cardiologista.
O médico lhe fez inúmeras perguntas e então apertou o gelado estetoscópio contra seu peito. Alçou um pouco as sobrancelhas e lhe avisou: “Vou encaminhá-lo à minha filha, que também é cardiologista e tem no consultório um ecocardiograma”.
Ao examiná-lo com o aparelho de imagem, a jovem doutora arregalou os olhos e perguntou como ele havia chegado até seu consultório. “De moto”, respondeu. Sem mesmo saber que se travava de uma motocicleta grande, pesada, de 400 cilindradas, ela exclamou: “Como?! O senhor está tendo um enfarte. Agora mesmo!”
E lhe explicou o que as imagens mostravam: sangue vertendo pelo lado direito de seu coração, decorrente de uma malformação congênita…
O resto da história é fácil de imaginar: ele saiu dali numa ambulância, direto para a Unidade de Terapia Intensiva de um hospital, onde passou os dias seguintes fazendo novos exames, até que um cirurgião veio lhe comunicar da necessidade de realizar um cateterismo, ou, caso não funcionasse, um transplante cardíaco.
“Felizmente, o cateterismo funcionou bem, e eu continuo aqui, tocando minha vida. O engraçado é que o cirurgião me contou que nunca havia feito um procedimento desses numa pessoa com tanta idade, somente em recém-nascidos, ou mesmo em fetos. O senhor é um caso raro, ele disse.”
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.