A situação do mundo me perturba, tanto quanto a qualquer pessoa minimamente atenta ao desenrolar do processo histórico, aquilo a que definimos como civilização. Constatamos que, embora haja ao menos uma saída, e muito promissora — o amadurecimento espiritual, e por decorrência emocional —, temos preferido nos manter neste triste caminho em direção ao desastre.
O fato é que nós, os 8,2 bilhões de habitantes da Terra nos encontramos submetidos, nesta exata altura da História de nossa espécie, a um processo esquizofrênico incontornável frente ao luto, que todos experimentamos, decorrente da inviabilidade de construirmos o futuro possível, aquele que pulsa no fundo de nossa coletiva esperança.
Uns vivem em negação absoluta, outros manifestam raiva, alguns tentam a barganha, muitos caem em depressão, outros tantos aceitam o fato consumado, e se calam. Mas também há aqueles que, numa espécie de transe conscientemente alimentado, frequentam todos esses estados emocionais e continuam em busca de uma saída para o impasse de nossa civilização — estes são os inconformados, entre os quais me incluo.
Se o gênero humano não tem futuro, como os fatos e o passo da História demonstram; se o desfecho de nossa experiência cósmica passa por esse caminho desastroso e incontornável que estamos trilhando, o que nos resta fazer? Sentar e chorar?
Penso que não. E este pensamento, que em essência me mantém vivo e define, certamente decorre do compromisso intimamente assumido com aqueles que eu contribui para trazer a este mundo, e com os outros que me são próximos. Sou (somos) reféns de nossas relações e círculos afetivos. O nome disso é compromisso.
E, como refém compromissado, constato que, em favor de uma chance à ‘via do prosseguimento’ (aquela que nos lança à frente, sempre em busca de soluções para as carências e dificuldades objetivas da espécie) há essa característica inerente à estirpe humana, que, se de um lado pode ser autodestrutiva, de outro também pode ser heroica e realizadora — trata-se da audácia. Ou seja, alguns indivíduos de nossa espécie não desistem. Nunca desistiram. Não conseguem desistir.
Não falo de mim, pois me considero apenas um observador privilegiado desse imenso teatro, sem qualquer poder de interferir nos rumos do trágico espetáculo. Refiro-me aos grandes pensadores, tanto das filosofias quanto das ciências, que, com suas maravilhosas visões, conhecimentos e perseverança, têm contribuído para dar um sentido, um rumo e oxigênio às nossas vidas (ou seja, à ‘via do prosseguimento’).
Ainda que, como sociedade, a covardia para enfrentar nosso pertencimento cósmico tenha prevalecido na História, e nos conduzido à catástrofe estampada neste exato momento, ainda assim muitos e muitos homens e mulheres ao longo de séculos e milênios fizeram-se surdos aos seus próprios medos, e ousaram seguir pelejando, em desafio aos perigos decorrentes de seus pensamentos e obras.
É a esses desassombrados indivíduos que devemos honrar, mesmo que um futuro promissor nos pareça agora interditado. Honrar a eles e a elas é principalmente dignificar a audácia inscrita em nossa genética, sediada em nossa vontade, traduzida em nossas escolhas e ações, apesar e a despeito da rede determinística que nos governa, desde o Cosmos; não obstante a indiferença do Universo frente aos nossos ais.
Resistir é a palavra.
Não temos o direito de conscientemente rebaixar nossa humanidade. A obtenção da grande e redentora vitória — traduzida na conquista da maturidade espiritual de nossa espécie, através do entendimento de que pertencemos a esta Terra e estamos inseridos no Universo — parece neste momento uma quimera, frente aos caos instalado. E, sim, é uma tarefa gigantesca, mas não uma impossibilidade (espero).
Aos poderosos movimentos em curso, destinados a controlar a consciência humana em favor de interesses mesquinhos; à tendência avassaladora de corromper as relações entre as pessoas através do descrédito à empatia, devemos opor nossa intrínseca capacidade de resistir. Pensada, pacífica, esclarecedora, sistemática, ilustrativa, convincente e construtora daquilo que é essencial, ou seja, a imprescindível superação de nossa imaturidade.
Houve um tempo, não muito distante, em que essas questões eram ridicularizadas, tratadas como coisas de lunáticos e/ou alienados, como abordei em texto anterior. Mas o jogo se acelerou e a verdade veio à tona, em especial desde que nossa espécie obteve o domínio da energia nuclear — ou seja, o poder de nos incinerarmos uns aos outros —, e avançou em outras degradações civilizacionais: consumismo, desperdício, poluição, ganância, neocolonialismo, desigualdade, exploração e, mais recentemente, xenofobia, ódio, intolerâncias generalizadas e sociopatia consentida.
Estamos perdendo, mas, repito, somos essencialmente audazes. Temos avançado na compreensão de nossas misérias; já vislumbramos um caminho viável de harmonização; e contamos com algum Tempo a nosso favor. Torço e atuo pelo melhor. Pelos meus. Por todos.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.