Ontem conversei longamente com meu dileto amigo Amaury Araújo, o Xará, que mora no Rio de Janeiro, e dentre os assuntos de sempre acabamos (re)falando sobre a pobreza cultural destes dias "cinza chocolate".
Hoje, ao ingressar no YouTube, deparei-me com uma entrevista de Arrigo Barnabé ao Luiz Thunderbird. O paranaense Barnabé foi um dos grandes produtores artísticos, a partir do Brasil, especialmente nos anos 1970, 80 e 90, utilizando-se da música como plataforma; assim como também o foi o paulista Thunderbird, um sujeito que transformou a inquietude em arte. Esse encontro, portanto, só poderia ser "sen-sa-ci-o-nal", como diz Thunder — veja aqui.
Mas este texto não se destina a louvar esses dois personagens, particularmente, embora ambos sejam dignos disso. Minha intenção, após ter tomado uma deliciosa sopa de inverno ao lado de meu filho e de minha companheira, é primeiramente lembrar que não há coincidências sobre a casca deste planeta. O aparecimento das figuras de Arrigo Barnabé e Luiz Thunderbird na tela do meu computador, após um boa sopa, meio que se integra à conversa com o amigo Xará.
E a pergunta que faço é simples: Onde está a arte neste nosso tempo?
Outro mestre e amigo dileto, Cid Marcus Braga Vasques, recém falecido, chamou minha atenção, no início dos anos 1970, para a onda de diluição que se alevantava no mundo da cultura. Por ele fui apresentado à classificação poundiana (de Ezra Pound), a dos inventores, mestres e diluidores, pois Cid, já àquela época, não enxergava mais muitos mestre na praça; menos ainda inventores. Só um exército de diluidores despontando no horizonte, vindo em nossa direção.
É claro que, conforme lembrava o próprio Pound, ninguém é sempre inventor ou mestre na vida, e também muitas vezes é diluidor. O que se constatava, porém, era um processo de rarefação de inventores, e até mestres, no universo das artes.
Se tivéssemos prestado atenção — talvez fosse a isso que Cid se referia; nunca lhe questionei a respeito —, é provável que, já naqueles primórdios dos 1970, tivéssemos compreendido o que estava por vir, e que afinal veio e está aí.
Não há mais invenção.
Não temos sequer maestria.
Esperamos "por Godot", como nos contou Samuel Beckett, um inventor, nos idos de 1952. Enquanto tal ser ou coisa não chega, vivemos uma era quântica, mergulhados nesta sopa de diluição.