Ideias (ingênuas) de Outono

Vivendo no primeiro milênio da era cristã, em Bagdá, o matemático al-Khuwarizmi (nascido em 780 dC), o árabe de ascendência persa que desenvolveu o conceito de algoritmo (denominação que deriva de seu próprio nome), assumiu o seguinte compromisso intelectual: "Tornar claro o obscuro e simples o complexo".   

Passados mais de mil anos de sua morte (em 850 dC), pode-se dizer que al-Khuwarizmi  'pai da álgebra' (al-Jabr, que significa 'endireitar o que está quebrado') sem dúvida alcançou aquele objetivo.

Afinal, algoritmo, palavra que integra o vocabulário cotidiano de qualquer idioma moderno, possui hoje um status equivalente ao da alavanca de Arquimedes (287-212 aC), ideia que permitiu a multiplicação da força humana no deslocamento de objetos pesados.

Assim como o princípio da alavanca(*) mudou a história do desenvolvimento humano, nosso mundo digital é movido a partir de sequências finitas de passos lógicos destinados a resolver problemas ou realizar tarefas — o tal algoritmo.

Ou seja, somos governados por sequências matemáticas, que, operando como 'receita de bolo' imutável e previsível (embora adaptável a infinitos propósitos), capturam nosso comportamento exposto no ambiente virtual, que inevitavelmente navegamos; interpretam nossas atitudes à luz de modelos estatísticos; criam padrões customizados e induzem nossos pensamentos, opiniões e ações.

1175 anos desde a morte de al-Khuwarizmi, e vendo isso em que nosso mundo se transformou, que lições podemos tirar de seu esforço cognitivo (e de tantos outros sábios do passado, do presente e do futuro) para clarear o obscuro e simplificar o complexo, frente aos impactos e as consequências inevitáveis desse processo de contínuo e progressivo entendimento dos fenômenos físicos (alavanca) e mentais (algoritmo)?

A principal lição, me parece, é a de que estamos, e sempre estivemos, mergulhados num paradoxo existencial: não controlamos os desdobramentos do entendimento que passamos a dominar, mas, apesar de constatarmos seus efeitos tantas vezes danosos, somos compelidos a buscá-lo indefinidamente.

Trata-se de um impulso autodestrutivo, como nos ensina a fábula do escorpião e o sapo(**), pois é da natureza humana que assim seja. O antídoto a esse veneno componente do caráter da nossa espécie possui duas vertentes de difícil aplicação: realizar a disseminação do esclarecimento (o que alguns definem como "democratizar o conhecimento"); e mobilizar os próprios avanços conquistados pelo esclarecimento, para encontrar meios e modos de prevenir e neutralizar seus impactos negativos.

Nos tempos de al-Khuwarizmi, a transmissão de conhecimentos se dava preferencialmente pela via oral, o que fortalecia a capacidade de memorizar, o poder da abstração, o raciocínio lógico e, por consequência, a aprendizagem. O obstáculo à disseminação do saber decorria da hierarquização social e da discriminação de gênero sexual, além das limitações técnicas, digamos assim, para essa realização.

O mundo das ciências exatas sempre esteve reservado a poucos indivíduos, os privilegiados, aqueles que por fatores genéticos e circunstâncias sociais possuem (sempre possuíram) ferramentas cognitivas adequadas, saúde mental preservada, incentivo do entorno e meios de acesso às fontes desses conhecimentos.

Ou seja, a circunscrição desses conhecimentos a uns poucos eleitos (ainda que involuntariamente eleitos!) resultou e tem resultado no estabelecimento de uma casta de indivíduos afortunados, reservando-se à imensa maioria dos habitantes do planeta a condição de infelicitados desconhecedores e usuários insuficientes desses aprimoramentos cognitivos.

Desconhecedores não porque queiram, mas porque, primeiramente, as sucessivas invenções (meios) destinadas a disseminar o conhecimento humano (escrita, tipos móveis, telégrafo, radiodifusão, cinema, televisão, internet, telefonia móvel, dados em nuvem, inteligência artificial, computação quântica) têm promovido não a expansão, mas uma progressiva e acelerada limitação ou estreitamento da capacidade de compreensão humana.

É preciso ressaltar, ainda, que as invenções da escrita e, depois, dos tipos móveis, embora tenham sido eventos maravilhosos, inauguraram o processo de deterioração da memória. Fato semelhante ocorreu com a invenção do telégrafo, que aproximou as pessoas, mas despersonalizou os relacionamentos; com o rádio, o cinema e a televisão, que construíram mundos oníricos perfeitamente manipuláveis; com a internet, que promoveu a quimera da interação planetária; com a telefonia móvel, que expandiu a comunicabilidade mas agravou o isolamento; com o smartphone, essa arma divertida que vibra em nosso bolso, e despertou inclusive "os idiotas da aldeia".

E, para completar a linha do tempo da deterioração dos nossos sentidos, temos de falar também dos dados em nuvem, que prometem ubiquidade, mas disponibilizam nossa intimidade a quem oferecer o melhor preço; da inteligência artificial, que nos oferece respostas sem reflexão (por enquanto!); e da computação quântica, que põe a imaturidade humana ao alcance da velocidade da luz.

Tudo isso teve e tem o seu valor. Ainda assim, volto a perguntar: al-Khuwarizmi, aquele a quem se atribui a formulação da álgebra (originária da palavra al-Jabr, ou seja, endireitar o que está quebrado), do algoritmo (que deriva de seu próprio nome e está intimamente ligado ao conceito algébrico) e da equação (que vem de adala, isto é, ser igual), aquele sábio matemático alcançou sua nobre tarefa de "tornar claro o obscuro e simples o complexo"?

A resposta, que me parece positiva, é igualmente negativa. Sim, porque foi a partir dele, e de tantos predecessores e sucessores, que chegamos até aqui no avanço das ciências. Não (e isso independe dele), porque esses avanços, além de se manterem restritos (por quem os elaboram e a quem se destinam) foram produzidos sem a compreensão clara e simples de suas implicações existenciais.

Poderia ter sido diferente? Nos momentos mais realistas, penso que nunca tivemos, temos ou teríamos a chance de disseminar os estudos matemáticos, por exemplo, tornando-os universalmente claros e simples. Não há equanimidade na genética, nas circunstâncias sociais, na posse de recursos cognitivas, na saúde mental, no incentivo do entorno e no acesso às fontes desses conhecimentos. Os indivíduos não são iguais em nada  nem no tempo, nem no espaço. Este é um dos desesperos da existência humana.

Mas ainda nos resta a vertente da mobilização dos próprios avanços conquistados pelo esclarecimento, para encontrar meios e modos de prevenir e neutralizar seus impactos negativos. Penso nos fenomenais recursos vislumbrados pelo crescente domínio da física quântica, em especial na sua aplicação em processamento de dados.

Os cientistas  como disse nessa postagem: Uma ideia em movimento   acreditam que a computação quântica será particularmente útil para questões que envolvem muitas variáveis, como análise de risco financeiro, criptografia de dados, estudo de propriedades de materiais, novos tipos de medicamentos, novos materiais para células solares, baterias e outras tecnologias hoje apenas especuladas. 

A essa lista poderíamos ingenuamente acrescentar, com as devidas cautelas e salvaguardas, a disseminação do ensino das ciências exatas, a começar pela Matemática. Esse é o meio. O modo de fazê-lo seria utilizar a capacidade massiva de processamento da computação quântica, para produzir conteúdos didáticos práticos ao alcance do entendimento dos mais variados públicos (quiçá individualizados), associando a apropriação do entendimento (por parte desses públicos/indivíduos) a recompensas como oportunidades de desenvolvimento profissional e o direito de participar do aprimoramento do processo de disseminação.

(*) Estabelecido na equação Fp × BP = Fr × BR, em que Fp é a força que vai provocar o movimento; Fr é a força potente do centro de apoio; BP é a distância da força potente; e BR é a distância da força resistente do centro de apoio.

(**)  Um escorpião pede ajuda a um sapo para atravessar um rio, mas no meio do caminho, ele pica o sapo, causando a morte de ambos. A fábula nos ensina que a natureza humana, ou a de um animal, pode prevalecer mesmo quando isso causa a sua própria destruição.