O inteiro e o quebrado

Viver não é levar uma existência descomprometida, conformada, distraída; não é nos voltarmos contra nossas potencialidades, ignorá-las, desperdiçá-las. Isto é recusar a vida, é a miséria do não-viver. Infelizmente, a maioria dos indivíduos de nossa espécie — 99, 95, 90 por cento? — tem enveredado por esse caminho irracional, insensato, redutivo, desde o instante em que veio à luz.

E por que é assim?

É assim porque esta civilização que erigimos nesses 300.000 anos 
 desde que nos pusemos de pé, passamos a consumir proteínas, expandimos nosso cérebro, dominamos o uso do fogo e nos associamos a nossos semelhantes , esta civilização de três mil séculos nos condicionou à subserviência. Não satisfeita, lançou-nos ladeira abaixo, impondo-nos o servilismo, a adulação, a indignidade.

Somos, para todos os efeitos práticos, materiais, mundanos, seres quebrados; indivíduos que não se vêm distintos, únicos, e que por isso se comprazem com as limitações impostas pela vida, esquecendo-se (ou melhor, sendo desde o berço educados a esquecer) de sua(nossa) essência cósmica, de nossa(sua) real espiritualidade.

E o que isso tem a ver com a vida de cada um?

Tudo!

Exemplo real: um jovem recém-admitido no primeiro ano de uma escola de nível superior acordou um dia sentindo o braço esquerdo tremer. Rapidamente, quando seus demais membros passaram a apresentar os mesmos movimentos involuntários, seus pais o levaram a médicos, exames, e veio o diagnóstico: ele é portador de uma doença genética degenerativa. O que fez esse jovem? Trancou-se em seu quarto? Desistiu da vida? Afogou-se na autocomiseração? Culpou o mundo? Absolutamente! Ele decidiu prosseguir seus estudos, com os devidos cuidados e as precauções necessárias. Escolheu permanecer na luta, viver como e da forma que a natureza lhe propôs — torço por ele, sei que já venceu.

É a isso que me refiro, repetindo o que tantos já disseram, ao afirmar que a única e verdadeira missão existencial do ser humano é levar ao extremo os atributos de sua individualidade. Não fazê-lo é mais do que um desperdício de talento, é uma traição à Humanidade, a negação de sua(nossa) espécie. Fazê-lo comedidamente, apenas em proveito próprio, é mais repulsivo ainda, pois é interesseiro.

É preciso, necessário, imperativo que desenvolvamos as potencialidades que a vida nos conferiu, e que as exercitemos até o limite de nossas forças (se físicas forem), ou de nossa cognição (se forem mentais). Tendo assim agido, tanto faz se as conquistas são físicas ou cognitivas. O que restará vivo é o ato realizado. O que pulsará é a existência sem desperdício, plenamente acatada, conscientemente perseguida.     

E o que ficará é o ser inteiro.