Engano-me, que eu gosto

O sr. Bill Gates, que dispensa apresentações, acaba de publicar um ‘corajoso artigo’ em sua página pessoal na internet — Gatesnotes — em que relativiza a chamada ameaça climática, afirmando, textualmente, que “embora as mudanças climáticas afetem as pessoas pobres mais do que qualquer outro grupo, para a grande maioria delas, essa não será a única, nem mesmo a maior, ameaça às suas vidas e bem-estar. Os maiores problemas são a pobreza e as doenças, como sempre foram. Compreender isso nos permitirá concentrar nossos recursos limitados em intervenções que terão o maior impacto sobre as pessoas mais vulneráveis”.

Disse ‘corajoso artigo’ porque, lá pelas tantas, o sr. Gates admite que “alguns defensores do clima discordarão de mim, me chamarão de hipócrita por causa da minha própria pegada de carbono (que compenso totalmente com créditos de carbono legítimos), ou verão isso como uma maneira dissimulada de argumentar que não devemos levar as mudanças climáticas a sério”.

Ocorre que não é de hipocrisia e dissimulação que se trata aqui, mas de covardia e irresponsabilidade existencial. O centro do impasse planetário não é o modo como estão sendo aplicados os “nossos recursos limitados”, e o sr. Gates sabe disso — esta é a covardia. A irresponsabilidade existencial reside no fato de que uma figura pública como ele, cujas palavras e opiniões possuem alcance ilimitado, não pode ignorar, por exemplo, informações como as listadas abaixo, obtidas por meio de uma simples consulta à plataforma de Inteligência Artificial do Google: 

“Os gastos militares mundiais em 2024 alcançaram um recorde de US$ 2,7 trilhões, representando um aumento de (9,4%) em relação a 2023, e a maior alta anual desde o fim da Guerra Fria (1947-1991). Esse aumento foi impulsionado por conflitos regionais e tensões geopolíticas, com mais de cem países elevando seus orçamentos de defesa, especialmente na Europa e no Oriente Médio. Os cinco maiores gastadores  — EUA, China, Rússia, Alemanha e Índia — foram responsáveis por 60% do total global.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Instituto para Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) indicam uma tendência de queda no investimento em saúde após o pico da pandemia de COVID-19, o que gera grande preocupação. A entidade projetou um declínio global de 21% na assistência ao desenvolvimento para a saúde entre 2024 e 2025, passando de US (49,6 bilhões para US 39,1 bilhões).

“A expectativa é que essa tendência de queda continue nos anos seguintes. As maiores reduções da Assistência ao desenvolvimento para a saúde (DAH) devem afetar a África Subsaariana, com uma queda de 25% entre 2024 e 2025. Esse cenário pode ter consequências graves em regiões com sistemas de saúde já fragilizados.

“A OMS alertou que a queda na priorização do gasto público em saúde pode comprometer a meta de cobertura universal de saúde (UHC), deixando cerca de 4,5 bilhões de pessoas sem acesso a serviços básicos e 2 bilhões enfrentando dificuldades financeiras por causa de despesas com saúde.

“O subfinanciamento dificulta o progresso em direção à Cobertura Universal de Saúde (UHC). A OMS estima que 4,5 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a serviços básicos de saúde, e 2 bilhões enfrentam dificuldades financeiras por causa de custos de saúde. A fundação da OMS alerta que a saúde global está em crise, com a redução de gastos empurrando mais pessoas para pagar por seus próprios cuidados de saúde, uma forma de financiamento desigual e insustentável. 

“O déficit de financiamento representa um grande risco para a saúde global. A diminuição da assistência externa e a despriorização dos gastos públicos por parte dos governos ameaçam o progresso histórico na saúde pública. A crise financeira que se estende para 2025 e além, conforme indicado por cortes previstos e déficits orçamentários na OMS, demonstra que o desafio de garantir um financiamento adequado para a saúde pública é urgente e de longo prazo.”

O sr. Bill Gates é uma pessoa inteligente; sabe que não está enganando ninguém com esse seu estranho artigo (nem mesmo as Inteligências Artificiais disponíveis). Talvez ele esteja querendo enganar a si próprio. Uma pena!