Dito tudo o que tenho dito e digo, posso agora confessar: só a expressão artística me comove e convence.
Por ela paro.
Refiro-me a todas as expressões artísticas, sejam as postas em imagens fixas, em movimento; sejam as artes escritas, as versejadas, as interpretadas, as esculpidas, as performadas pelos atletas extremos; as produzidas por qualquer anônimo capaz de extrair da cotidiana existência o máximo de sua especial humanidade.
Todas as artes me comovem e me convencem, mas há uma que mais me toca: a expressa pelo som.
O som é sagrado.
Harmoniza o que é incoerente. Enche de ruídos as iniquidades.
O som é assim. Faz a criança de um favela chorar, como presenciou minha companheira Silvia, professora de Educação Infantil, ao colocar em seu tocador de cd Nessun Dorma, de Giacomo Puccini. Sim, a criança de uma favela chorou ao ouvir palavras que não entendia, mas que o som sua emoção alcançou.
Esse é o dom do som.
Ele nos organiza.
Finca nosso peso sobre a Terra, nos humaniza, dá razão ao existir.
O som tem esse poder, que não é daqui nem dali. Ele está no cosmos, ainda ou mesmo que no mais profundo e distante cosmos prevaleça o silêncio, aquilo que por contraposição lhe dá vida. Ao som.
Todos os sons valem um escutar.
O do acalanto da mãe. O dos conselhos do pai. Os muitas vezes repetidos e repetidos e repetidos segredos das velhíssimas avós.
O som me comove e convence.
O som.