É quase verão aqui no Sul

Não sou (ou talvez me recuse a ser) saudosista. Penso que cada época encerra suas próprias aspirações e gera seus particulares impulsos rumo ao futuro, sempre rumo ao futuro. E é sem nostalgia que tentarei aqui delinear o contexto com que a geração de minha juventude se defrontou, em comparação, se disso for capaz, com o quadro geral destes dias.

Volto a meados dos anos 1960, até o fim dos 1970.

Sim, apesar do ambiente repressivo que literalmente nos envolvia naqueles tempos, a verdade é que nunca de fato capitulamos. Sabíamos que não há mal que sempre dure, porque, como se dizia, não éramos alienados. O ambiente social dos emergentes centros urbanos, em que vivíamos, somado à qualidade do estudo que as escolas de então nos proporcionavam, ainda não havia sido privado dos ideais humanistas (o que aconteceria pouco depois).

As ditaduras vêm e passam, sabíamos, intimamente. Só precisávamos de resiliência (adjetivo emprestado da Física, popularizado neste século XXI por influência norte-americana); só precisávamos aguardar a virada dos ventos. Aguardar ativamente, mas aguardar.

Enquanto isso, nosso espírito se voltava ao novo, todos os novos que o mundo nos trazia, especialmente deste lado do Atlântico. Se as décadas anteriores, pré ou imediatamente pós-I e II guerras mundiais, haviam produzido grandes expressões na filosofia (existencialismo, em especial), nas artes plásticas (expressionismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo etc.), na música erudita (atonalidade, serialismo, dodecafonismo etc.) e na popular (jazz, blues etc.), a juventude de minha geração experimentava os ares de renovada e popular rebeldia.

Embalada desde os anos 1950 pela Geração Beat (Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.), seguimos adiante na construção do que se denominou contracultura, sempre em busca de outras experiências existenciais; não aquelas herdadas de nossos pais, pois já as percebíamos como falidas. 

Se eu pudesse enfiar uma faca no meu coração
Cometer suicídio no palco
Seria o suficiente para o seu desejo de adolescente?
Ajudaria a aliviar a dor?
Aliviaria a sua consciência?


Se eu pudesse penetrar fundo no coração
Haveria sensacionalismo nos jornais
Isto iria te satisfazer? Passaria desapercebido?
Você acharia o garoto louco? Ele não é louco?

Eu disse que sei que é só rock'n'roll, mas eu gosto
Eu sei que é só rock'n roll, mas eu gosto.


Os Stones desempenhavam nos palcos, nós queríamos mudar o mundo, e o mundo ansiava por mudança. Aqui, em nosso Brasil, sabíamos que um novo tempo chegaria. E chegou com a Tropicália, encetada pelos bahianos, continuada pelos mineiros, pernambucanos, cearenses, piauienses, gaúchos, paulistas e tantos mais. Nenhuma ditadura resistiria a tanta intensidade, como não resistiu, como sabíamos, intimamente, que não resistiria.

O mundo ainda se definia por compartimentos, zonas de influência, certo e errado — a rebeldia de nossa geração não fora capaz (nem a isso se propusera) de mudar a geografia política, a geopolítica. Então veio o esgotamento, o cansaço que sucede toda rebeldia e se transforma em perversão. O que era amor livre virou promiscuidade; o que era usar alucinógenos em busca de experiências enriquecedoras virou instrumento de yuppies, os tais jovens profissionais urbanos; o que era valorizar a comunidade humana virou, gradativamente, explorar com método e crueldade os habitantes da Terra.

Estávamos, então, em pleno século XXI. A (inevitável) rede mundial de computadores, gestada na barriga dos senhores da guerra, deitava seus primeiros tentáculos em direção ao ambiente civil-comercial (e, depois, ao político-ideológico). E nosso mundo já não poderia deixar de ser outro.

Um outro mundo em que, aliás, não cabem rebeldias.

Rebelarmo-nos contra quem, contra o quê, se somos nós mesmos os agentes e pacientes de todos os males que nos afligem? A única rebeldia que nos resta, parece, é a de aprofundarmos esta espiral de impossibilidades em que estamos metidos, até que alguma singularidade seja alcançada. Aí, sim, como um Big Bang existencial, talvez nossa espécie inaugure e expanda uma nova chance.