Tamo junto!

Em postagem no Instagram, não sei se recente ou antiga, o notório Edward Snowden denuncia o estado de monitoramento a que todos nós, usuários da rede planetária de comunicação, estamos permanentemente submetidos pelas plataformas ou serviços que frequentamos na internet. 

Não é nada pessoal, eles só querem recolher, registrar, catalogar e empacotar nossos hábitos de navegação na rede mundial, para fins exclusivamente comerciais e usos político-ideológicos, com isso ganhando muito dinheiro em cima das fraquezas de 8,2 bilhões de otários. Talvez um pouco menos, descontando os que ainda não possuem computador e/ou celular, e eles próprios, os caras que nos monitoram.

Ocorre que, nesta altura do jogo da História, sejamos realistas: ninguém pode mais alegar ignorância sobre nada do que acontece no ambiente digital; todos os riscos e perigos estão ditos, expostos e repetidos à exaustão nas próprias redes sociais globalizadas. E mais: elas, as redes, não se importam de serem ‘denunciadas’, enquanto nós, seus usuários, não nos importamos de termos nossos acessos mapeados. 

Não damos ouvidos aos alertas, e não nos precavemos porque a exposição de nossos gostos, preferências, necessidades e medos são o preço a pagar pelas conveniências e necessidade de estarmos dia e noite conectados, sentindo-nos pertencentes a este bravo novo mundo. E mais: sabemos que não há saída — talvez nunca tenha havido. O polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) nos alertou disso há muitos anos: quanto mais liberdade queremos, menos segurança teremos, e vice-versa

Fato é que a tal ‘era da inocência’, quando as massas eram manipuladas e submetidas, ficou para trás; não temos mais a quem, ou a quê culpar. Hoje, com graus diferentes de consciência, que vão da indiferença ao cinismo, somos agentes e pacientes de nossas próprias misérias — esta é a ironia deste nosso tempo.

E se é assim, por que personagens como Snowden ainda vêm a público, via redes sociais, para nos alertar de que estamos sendo permanentemente vigiados; de que tudo o que fazemos dentro da rede mundial é identificado, copiado, transferido para bancos de dados que armazenam toda a nossa vida e a combinam com a vida de milhões de outras pessoas, produzindo pacotes de grupos de interesse destinados à venda de produtos, ideias e ideologias? 

Alguns dirão: “Alguém precisa denunciar!”

Eu também penso assim; melhor que denunciem. Só não podemos nos enganar esperando qualquer reação institucional a essa nova realidade, a esses novíssimos instrumentos de controle dos indivíduos, dos grupos sociais, das sociedades nacionais, dos países, da humanidade.

Nenhuma organização transnacional, nenhum governo de qualquer país, nenhuma pessoa, acredito, está verdadeiramente interessada — e muito menos empenhada — em pôr fim à nova dinâmica da comunicação globalizada, objetivamente traduzida nas redes sociais turbinadas pela Inteligência Artificial.

Ninguém abre mão das facilidades proporcionadas pela informática; todos querem mais automação de tarefas repetitivas, menos trabalho monótono, mais acesso com apenas um toque a produtos e serviços, menos obrigação de pensar, mais informações geradas por bancos de dados que facilitem suas vidas, mais, menos, mais, menos, mais, menos, e mais rápido.

Nas escolas brasileiras, por exemplo, os estudantes vêm adotando a prática de recorrer às plataformas de IA para realizar suas tarefas diárias e, principalmente, seus trabalhos de conclusão de curso. Não entendem nada do que a Inteligência Artificial lhes fornece como respostas, mas as copiam e entregam como se fossem suas. Não enganam ninguém, porém constrangem seus professores a aceitá-las, embora ambos saibam que com isso não estão se qualificando para o mercado de trabalho, onde se tornarão párias.

O emburrecimento de sucessivas gerações não é fenômeno novo. Tem origem no modelo massificado e tecnicista de ensino (que a partir da segunda metade do século XX passou a priorizar os interesses do mercado de consumo de massas, em detrimento da formação humanista dos jovens), complementado pelo amesquinhamento social do professor (péssima formação acadêmica, péssimos salários, péssimos ambientes de trabalho etc). A diferença para o desastre que se constrói nestes nossos dias é que, hoje, o impacto se dá sobre todo o planeta.

Tamo junto!