Ser

A arte como modos da nossa espécie expressar o belo, destinando-o à fruição solitária e egoísta, é uma visão insuficiente do chamado fazer artístico. É claro, sempre teremos pintores, compositores, escultores, atores gerando belezas, mas o fato é que a arte de poucos para poucos já não basta.

A final do Campeonato Mundial de Tênis de Mesa Lin Shidong vs Hugo Calderano —, nesse domingo, dia 20 de abril, em Macau, foi prova disto. Assistida por milhões de pessoas em todo o planeta, com especial atenção pela China, que tem produzido os melhores mesa-tenistas de todos os tempos, a partida vencida por Calderano já entrou para a história da modalidade.

Exercitando um poder de concentração que desafiava os limites humanos  como devem fazer os verdadeiros atletas , associada a uma força mental e preparo físico igualmente extremados, o brasileiro se impôs sem contestação, dobrando sem arrogância a antes intransponível hegemonia chinesa. Realizou uma obra de arte.

O tênis de mesa talvez seja um dos esportes mais difíceis de serem praticados. A rapidez com que é disputado, sem violência (porque afinal se trata de bater em uma bolinha pesando não mais do que 2,74 gramas) e com muito conhecimento intuitivo de física, aerodinâmica e psicologia (esta para perceber e atuar sobre as fraquezas momentâneas do adversário), o tênis de mesa não deixa margem para erros continuados.

A partida Lin Shidong vs Hugo Calderano foi uma demonstração cabal de que o fazer artístico não é restritivo. Ele pode e deve ser exercitado por toda e qualquer pessoa, em qualquer área ou esfera de atividade.

Fazer bem, tanto quanto fazer o bem, são dois caminhos que se completam. O fato de não termos até agora compreendido isso explica, em grande medida, a falência civilizacional em que nos encontramos.

Não há desculpas para meias medidas. A todo ser humano só resta uma alternativa: ser. Ainda que isto signifique a derrota para um oponente mais preparado; não há demérito em perder para o outro circunstancialmente melhor. O não ser, como aventou o poeta, é renunciar ao jogo, é negar a humanidade, é um monumento à covardia.